Essa é uma notícia triste para quem, como eu, é praticamente viciada na maravilha da ciência que são os refrigerantes dietéticos: uma pesquisa do Instituto Framingham, Boston, EUA concluiu que o hábito de beber mais de um refrigerante por dia, mesmo sendo dietético, está associado a um risco muito maior de desenvolver obesidade abdominal e Síndrome Metabólica. O consumo diário de refrigerante mostrou um aumento de 48% na prevalência da síndrome metabólica em comparação aos indivíduos que consomem menos de um refrigerante por dia. Até aí, tudo bem, quero dizer: isso já é esperado. O surpreendente nesse estudo foi que ele demonstrou que não faz diferença se o refrigerante é normal ou dietético!
Segundo o autor principal desse estudo, Dr Ramachandran Vasan, professor da Escola de Medicina da Universidade de Boston, o resultado surpreendente do trabalho foi mesmo mostrar que o risco aumenta tanto em pessoas que consomem o refrigerante diet quanto entre os que tomam a versão normal. “Esse foi um dos aspectos mais interessantes e surpreendentes desse estudo,” disse o pesquisador para a newsletter heartwire. “Realmente não faz diferença se o refrigerante é normal ou dietético. Existe mesmo uma associação entre risco aumentado de desenvolvimento de Síndrome Metabólica e o consume desses dois tipos de bebida.”
Deve ser uma notícia meio assustadora para a indústria dos dietéticos. Afinal, este é o primeiro estudo avaliando o consumo de refrigerantes diet, consumidos principalmente por pessoas que querem perder peso.
Esses resultados, e a discussão sobre eles, estão publicados na revista Circulation de 23 de julho, 2007. Dr. Vasan afirma que o consumo de refrigerantes mais do que dobrou, quase triplicando, no período entre 1977 e 2001. Durante esse mesmo período, o tamanho das porções dessas bebidas também aumentou assustadoramente. Agora, com a evidência de que o consumo dessas bebidas está indiscutivelmente ligado a aparecimento de fatores de risco cardiovascular, isso passa a ser um problema de saúde pública.
A pesquisa avaliou 9 mil pessoas de meia-idade, durante quatro anos. Foi observada uma associação significativa do consumo de refrigerantes com o desenvolvimento de fatores de risco da síndrome metabólica, como doença cardiovascular, diabetes, aumento da circunferência abdominal, hipertensão, elevação nos níveis de triglicerídeos e de glicose em jejum, além da redução de lipoproteínas de alta densidade (o “colesterol bom”). Aqueles com adoçante, com zero ou quase zero calorias, também parecem aumentar o risco metabólico em adultos de meia idade, tanto quanto os refrigerantes normais. De uma forma ou de outra, os indivíduos que beberam mais de um refrigerante por dia apresentaram um aumento de 31% nas chances de serem obesos; 25% na elevação dos triglicerídeos e 32% na redução do colesterol bom.
No caso dos refrigerantes normais, a explicação parece mais fácil. Bebidas de índice glicêmico muito alto estão associadas a hiperinsulinemia, mais fome e maior ganho de peso. O xarope de frutose de milho, utilizado nos refrigerantes, causaria ganho de peso; OK, essa são ótimas explicações possíveis para quem toma refrigerante normal. Mas... e o diet?
Ainda não parece haver mais do que especulações teóricas para explicar esse achado. O estudo – publicado na revista Circulation, da Associação Norte-Americana do Coração – apresenta três possíveis hipóteses para discussão:
“Indivíduos que tomam mais refrigerantes tendem a ter uma ingestão tambem maior de calorias, consumir mais gordura saturada e gordura trans, ingerir menos fibra e menos laticínios e ter vida mais sedentária,” disse Dr. Vasan. “Mas, pensando que essas pudessem ser as causas de aumento de risco, nós ajustamos a análise para a maior parte dessas variáveis, mas, mesmo depois dessa correção, houve uma associação significativa evidente.” Poderia ser algum fator dietético ou comportamental que não foi possível isolar na análise?
O refrigerante dietético poderia induzir uma resposta condicionada no comportamento, promovendo uma preferência maior por alimentos de sabor mais doce.
Também, pelo fato dos refrigerantes diet serem líquidos, poderiam levar as pessoas a ingerir mais comida na refeição seguinte, porque os líquidos provocam uma saciedade muito passageira.
Finalmente, o corante caramelo presente nos refrigerantes mostrou estar ligado a dano tecidual e atividade inflamatória, o que poderia contribuir para esse risco aumentado. Prometo investigar essa hipótese mais a fundo, porque me parece a melhor das que foram citadas e que estão sendo discutidas na literatura científica.
De qualquer jeito, os pesquisadores parecem ter ficado tão intrigados quanto eu com esses resultados, sugerindo a necessidade imediata de novos estudos para investigar essa associação. Só de uma coisa eles têm certa: essa associação, na opinião deles, não pode ser só simples obra do acaso.
- Dhingra R, Sullivan L, Jacques PF, et al. Soft drink consumption and risk of developing cardiometabolic risk factors and the metabolic syndrome in middle-aged adults in the community. Circulation 2007; DOI: 10.1161/circulationaha.107.689935. Available at: http://circ.ahajournals.org.
- The choice of a metabolic-syndrome generation: Soft-drink consumption associated with increased metabolic risk
- Refrigerante Aumenta Prevalência de Síndrome Metabólica (site da ABESO)








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